terça-feira, 17 de maio de 2022

Corpos negros na dança clássica

 

Consuelo Rios

Entende-se que o ballet está imerso por uma concepção de beleza relacionada a um modelo de corpo e a um comportamento associado à técnica clássica. Ultrapassar os limites do estereótipo é fundamental para valorizar e democratizar a dança a todos os corpos, raças, gêneros que desejam fazer parte dessa forma de expressão tão linda, porém preconceituosa. É importante questionar onde estão as bailarinas negras e atentar-se que a presença ou ausência delas nos palcos é uma construção histórica, cujos resquícios se perpetuam na contemporaneidade. Para almejar determinado lugar é necessário se ver representado. Qual seria a importância de uma professora de ballet negra? A busca por referências, especificamente no ballet clássico, é uma maneira de dar visibilidade e protagonismo a essas artistas, como também entender que apresentar novas expectativas é primordial para contribuir com a construção de novos paradigmas.

Assim, buscamos tematizar sobre como o corpo feminino negro foi excluído e apagado das práticas promovidas por instituições dessa modalidade da dança que, operando saberes e poderes privilegiou corpos normatizados brancos, criando um estereótipo de

Bailarina “perfeita”.

 

Representatividade negra no Ballet Clássico

Atualmente, a visão que se tem da bailarina ainda é uma visão idealizada, do período romântico, como um ser perfeito, fragilizado, intocável, jovem, bela, magra e delicada. Esse corpo não só é imaginado pelo senso comum, mas também perpetuado por professores de ballet que orientam suas alunas, disciplinando-as para permanecer de acordo com esse estereótipo. Percebe-se que a busca pelo perfil da bailarina, composto por corpos de origem europeia e de olhos claros, é contraditório ao se ter como realidade o Brasil, com a maioria da população sendo negra.

Nesse contexto, há ausência de personagens negras protagonistas. São muitas histórias documentadas e registradas e nenhuma delas traz consigo um protagonismo negro. A grande parte dos contos nos quais os balés de repertório se baseiam são de escritores brancos e de momentos históricos em que as histórias são contadas pela ótica de uma população burguesa em ascensão. Entre as histórias estão: O lago dos cisnes, o Quebra nozes, Dom Quixote, Coppélia, em nenhum desses uma menina negra se apresenta como protagonista.

A imagem estereotipada que se desenvolve ao que se acredita que deve ser um bailarino, exclui meninas e meninos interessados na técnica clássica, mas que não se veem representados por serem fora do padrão.

Os bailarinos negros são inúmeros, extremamente capazes, mas o racismo ainda dificulta o acesso dos mesmos aos espaços da cena profissional e isso se torna visível na presença de poucos bailarinos negros em grupos profissionais. Com isso devemos não ignorar essa realidade, mas abrir um olhar para esse cenário de forma reflexiva.

A companhia Dance Theatre of Harlem com uma proposta originada e dirigida por Arthur Mitchell, tem como protagonistas bailarinas negras e negros. Em seus repertórios, eles são os principais e a companhia ressignificou diversas remontagens de balés de repertório com os personagens sendo negros, servindo como exemplo para o protagonismo afro descendente nesse cenário.

Arthur Mitchell

Jovens negros deveriam acessar o ensino de balé clássico, que lembre que eles existam e os vejam como possíveis profissionais, possibilitando um futuro artístico que possa ser traçado pelos mesmos. O sonho se torna possível quando ele é imaginado. O que não se pode esquecer é um legado de bailarinas negras brasileiras que marcaram o mundo da dança por suas pesquisas e sua expressão em cena. Grande parte delas ainda não possui o reconhecimento que merecem, mas, a partir do momento em que elas são citadas, a história delas permanecem vivas.

Independentemente do talento, da vocação, das habilidades físicas, uma bailarina não pode sonhar com o mais alto posto da maior companhia de dança clássica do seu país por causa da cor da sua pele e isso é preocupante

 

Referências Negras
Elas abriram caminhos para outras bailarinas que hoje conseguem uma notoriedade que suas antepassadas nem sempre conseguiram:

         Consuelo Rios: se tornou uma das principais professoras de ballet do País, Consuelo foi tentar concorrer às vagas do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas não foi sequer aceita para fazer a prova, apesar da sua excelente técnica clássica, pelo simples fato de ser negra. Consuelo, então, não entrou no corpo de baile do Municipal, mas decidiu estudar muito para se tornar uma boa professora. Mais do que isso: se tornou uma das principais e melhores professoras de ballet que o nosso País já teve e por suas mãos passaram gerações de primeiras bailarinas e de bailarinas do Municipal e do exterior.

         Mercedes Baptista: Foi a primeira negra a fazer parte do Corpo de baile do TMRJ. Por ser aluna da escola não pode ser impossibilitada de fazer a prova, portanto a fez e passou. Para ela, infelizmente, entrar no corpo de baile não iria significar se tornar uma bailarina atuante nos palcos. De fato, ela não foi tão atuante assim. Só participou de ballets nacionais pelo TMRJ e nunca de ballets de repertório. Dança, para ela, só as aulas da escola.



 

Outros nomes importantes:

         Katherine Dunham

         Arthur Mitchell

         Misty Copeland

         Precious Adams

         Janet Collins

          Raven Wilkinson

         Lauren Anderson

         Céline Glitens

         Michaela DePrince

         Bethania Gomes

         Bruno Rocha


     Gabriela Branco, Esther Verta e Tálita Vitória (Formandas 2022)