domingo, 24 de abril de 2016

Maria Baderna – Bela, recatada e do lar

Segundo dicionário Houaiss, “baderna” significa:

1 situação em que reina a desordem; confusão, bagunça

2 divertimento noturno; boêmia, noitada

3 conflito entre muitas pessoas; briga, rolo

4 Derivação: por metonímia.

grupo de pessoas desprezíveis; corja, súcia

A revolucionária dançarina francesa Marietta Baderna, que ousou questionar a cultura imperial.

Todos sabem que “baderna” é sinônimo de bagunça. O que não se sabe é a rica história que existe por trás de sua origem. Nascida no ano de 1828, em Castel San Giovanni, Piacenza (Itália), filha do médico e músico Antônio Baderna, Marietta foi aluna do coreógrafo Carlo Blasis. Estreou aos 12 anos em sua cidade natal, e logo integrava a companhia de dança do teatro Scala de Milão. Nessa época a Itália estava fervendo politicamente, buscando a unificação, e ocupada pela Áustria. Marietta era militante, seguidora de Giuseppe Mazzini, e obedecia a ordem da diretiva revolucionária de não participar da vida artística enquanto os austríacos estivessem na Itália.


Marietta Baderna
                                                   
Seu pai, Antonio, era republicano e tinha sido derrotado no movimento democrático de 1848. Para fugir da repressão, levou a filha a aceitar um convite para se apresentar no Brasil, onde desembarcaram no ano seguinte. Marietta estreou em terras brasileiras no dia 29 de setembro de 1849, no balé "Il Ballo delle Fate" (A Dança das Fadas). Como primeira-bailarina do Scala, Marietta despertou desde o início a atenção dos brasileiros, que nunca tinham visto uma artista dessa categoria. Mas foi do contato com a dança das negras e com o canto de resistência dos escravos que Marietta Baderna fez-se uma bailarina do povo. Ela se encantou com os ritmos africanos e com a ginga das negras e mulatas e incorporou os passos fortes e sensuais do lundu, da cachuca e da umbigada. Marietta vivia de maneira excessivamente liberal para o Brasil de D. Pedro II. Num ambiente de moralismo e preconceito, pode-se imaginar o escândalo quando, no Recife, em 1851, Baderna resolveu apresentar um lundum. Apesar dos protestos racistas, a temporada foi mais um sucesso. Sempre que os moralistas tentavam boicotá-la (diminuindo seu tempo no palco, ou a colocando em segundo plano), seus seguidores (badernistas) protestavam, batendo os pés no chão e interrompendo o espetáculo. Ao término da apresentação, saíam do teatro batendo os pés e gritando o nome da musa: Baderna.

Nos anos seguintes, o panorama artístico do Rio de Janeiro alterou-se. O público interessava-se cada vez mais pela ópera e pelas cantoras, o que levou à marginalização da dança. As umbigadas libidinosas aprendidas com os escravos no Largo da Carioca não caíram bem aos olhos da “boa sociedade”, que pouco a pouco passou a torcer o nariz para Marietta. Torceu mais ainda quando a moça se declarou antimonarquista e tratou de armar greves contra empresários que não pagavam os artistas. Saiu das graças da imprensa e dos mais conservadores. Seus últimos passos na capital da Corte foram registrados em 1865, quando, já em decadência, atuava como dançarina de vaudeville. Não se sabe exatamente por onde viveu depois disso ou quando morreu, mas uma coisa é certa: de seu nome completo – Marietta Baderna – originou-se mais uma palavra no nosso vocabulário. 




Livro que conta a história de Maria: "Maria Baderna - a bailarina de dois mundos" , de Silverio Corvisieri

As referências à Baderna na imprensa escasseiam, mas sabe-se que ainda estava no Rio em 1856. Reapareceria na França em 1863, onde fez sua despedida dos palcos, em 1865. Depois, veio o silêncio, ajudando a alimentar o mito. O mito da bailarina que foi amiga do grande ator João Caetano, contemporânea de cantoras famosas como a Candiani e elogiada por escritores e jornalistas como José de Alencar ou José Maria da Silva Paranhos, o futuro Visconde do Rio Branco. Mito de uma mulher que ousou desafiar as normas de uma sociedade conservadora e escravista..

Marietta Baderna foi mulher livre e dona de si. Viveu plenamente como bailarina e dançou como quis. Seu espírito ainda habita as ruas desse Brasil: nós, mulheres, somos livres para sermos como bem entendermos.E ponto final.


"Bloco Maria Baderna", em Contagem, MG.
Bloco Maria Baderna.



Giulia Rossi - 2° Técnico e Sabrina Roberti - 1° Técnico

4 comentários:

  1. Postei um longo comentário sobre Maria Baderna, mas ele sumiu. Parabéns pela matéria.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Por que o autor retirou o comentário de Marilia Giannini casada com Paulo Roberto Rydlewski, falo em bom son grito se for necessário Marietta Baderna (Giannini) é a minha trisavó italiana

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